01 dezembro, 2006

A poética do desenho - o fio como matéria



Segundo Frederico Morais, “O desenho rompe com todas as hierarquias, situa-se além de qualquer cronologia, revela seu próprio tempo e o tempo do artista. O desenho tem uma qualidade a mais que os outros meios de expressão. Além de “armar o braço” é, ao mesmo tempo, o mais confessional dos meios plásticos, diário íntimo, eletrocardiograma, rebeldia travada no meio da noite, solitariamente. Uma qualidade a mais, dizia, porque o desenho parece escapar à polêmica estéril entre vanguarda e retaguarda, entre o velho e o novo, navega imperturbável entre ismo e épocas. De Holbein a Steinberg é sempre atraente e como nunca parece esgotar suas possibilidades, permanecendo como um eterno croqui, estimulando muito mais, no espectador, a participação intelectiva e emocional. E permite todas as virtualidades e virtuosidades, porque um desenho você larga aqui e recomeça ali, hoje, amanhã, ontem. O desenho é para ser lido, como um poema.”
Percebe-se que o desenho proporciona uma viagem no tempo e no espaço, traçando linhas que marcam épocas, momentos, situações, promovendo toda uma manifestação de sentidos que afloram sentimentos, lembranças tanto para quem produz como para quem recebe, numa troca mútua de experiências, na possibilidade constante de se fazer presente, à cada mudança do olhar. Sentir o riscar, o tocar da grafite, carvão, giz, na superfície é registrar marcas no tempo desenvolvendo um diálogo que transita entre a matéria e a memória. Desenhar é estar no gesto de se mostrar presente com o seu íntimo. Este ato de intimidade, da revelação e descoberta se busca a cada instante, segundo Edith Derdyk, nas manifestações mentais como lembrar, imaginar, sonhar, observar, associar, relacionar, simbolizar, reapresentar. No ato de desenhar está implícita uma conversa entre o pensar e o fazer, entre o que está dentro e o que está fora. Recebem-se inúmeros estímulos a todos instantes. Relacionando alguns, selecionando outros, valorizando, negando. É desse movimento interno vão surgindo as configurações e constelações de significados que irão se transformar em futuros entes gráficos .
A cada instante, relacionam-se elementos do tempo e do espaço, assim como o desenho que congrega o presente como o passado e um futuro, transformando-se em manifesto de identidade, sendo um exercício do desejo e do que se vê. Este olhar que se é permitido se faz presente num momento em que se deseja ver além do que se é visto, através do vidro do realismo que neste momento encontra-se ‘embaçado’ fazendo com que se passe a ver com o olhar interior, não mais desenhando o que é visto, e sim desenhando o que se sente. O objeto passa a ser referência para uma nova forma que surge a partir desse olhar transformado. Francastel acredita que, “A visão é fruto da comunhão ou do confronto entre o mundo exterior e o mundo interior. O índice de existência de uma visão interior é revelado pela nossa capacidade de formular pensamentos, atribuir conceitos, se é que podemos dizer assim. O desenho, “fábrica de imagens”, conjuga elementos oriundos do domínio da observação sensível do real e da capacidade de imaginar o projetar, vontades de significar. O desenho configura um campo minado de possibilidades, confrontando o real, o percebido e o imaginário. A observação, a memória e a imaginação são as personagens que flagram esta zona de incerteza: o território entre o visível e o invisível.”
O que se pode ver através do desenho vai além do que a retina capta, o campo preceptivo se amplia a cada diálogo que se forma através do riscar, o qual se constrói a partir desse movimento interno e externo que passa a se transformar em imagens tornando-se índice para esta nova visão que se configura na própria interpretação de cada um de nós, tanto do artista quanto do espectador.
O desenho dentro dos cânones tradicionais tem como essência o grafite ou carvão e papel, e o seu uso como instrumento de observação, atuando como um terreno comum de comunicação e representação normal.
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, o Desenho [Do it. Disegnare] tem como significados: representação de formas sobre uma superfície, por meio de linhas, pontos e manchas; a arte e a técnica de representar, com lápis, pincéis etc., um tema real ou imaginário, expressado na forma; toda obra de arte assim executada; traçado, projeto.
Considera-se hoje que aos poucos o desenho vem se transformando em linguagem contemporânea, se tornando um instrumento que relaciona com a realidade circundante convertendo-se em um veículo de reflexão das idéias que pairam sobre a mente e que materializam no papel ou em outro suporte, referindo-se a uma realidade presente e imediata que necessariamente não precisa estar presente, mas que exista na mente do artista, se configurando entre o imaginário e o real, entre o mundo dos sonhos, das recordações, o mundo dos materiais, das sensações físicas. O que se busca nas artes hoje tanto no desenho como em qualquer outra linguagem artística é o rompimento dos cânones tradicionais, onde a visão retiniana deixa de ser a projeção real do mundo, passando a imaginar a nossa projeção do mundo, o que é visto e sentido.
Daniela Bousso faz considerações referentes ao desenho, como: “O desenho pode ser trabalhado, tanto na sua concepção mais tradicional, desde as incursões por linhas, grafismos, problemas da observação e da configuração, como nos movimentos de esconder-se, revestir-se, camuflar-se, desvelando-se em desdobramentos poéticos do conceito e do pensamento, firmando-se enquanto estrutura mental subjacente à obras.”
A construção do desenho se dar de maneira variada, desde seu isolamento, ou seja um objeto uma vez situado fora do seu próprio campo, e removido para um outro campo ,paradoxalmente, estará livre do seu ‘esperado’ suporte que em geral é o papel, assim como a partir de uma modificação onde aspectos do objeto são alterados. Para Lucimar Bello , na arte contemporânea o desenho possui uma autonomia e a própria autonomia do artista em transformar um estado de ordem – desordem – ordem num processo de hibridização onde dois objetos familiares produzem um terceiro, provocando acasos e encontros acidentais, numa bipolaridade conceitual, no uso de imagens interpretadas, nas quais duas situações são observadas de um único ponto de vista, modificando a experiência espáciotemporal num inter-relacionamento e entre-cruzamento gerando objetos efêmeros singulares, fundamentados nas formas de investigação, afirmação e/ou negação de teorias da arte, da cultura, da filosofia e de diversas áreas do conhecimento, as quais se entrecruzam, se abastecem e se desafiam. Bello tem desenvolvido uma investigação profícua a cerca do desenho. Para ela, “O desenho, na contemporaneidade é desenhado, é pintado, é esculpido – é plural e trans-criado – construído por associações de materiais, quer sejam apropriados da natureza – folhagens, água, raios, nuvens, quer sejam apropriados do mundo da cultura – lixo urbanos, fragmentos industriais, quer sejam produções tecnológicas – multimeios e interatividades - obras virtuais.”
Para a construção do desenho, tem-se a linha que se torna o fio que conduz, o fio de Ariadne que nos leva inconsciente ao mundo amorfo que nos circunda por toda à parte, neste labirinto de imagens, de milhões de objetos que cerca a cada momento nossa visão. Sem a linha não encontraríamos o caminho de volta. Ela é, como diz Edith Derdyk, o elemento essencial da linguagem gráfica, não se subordina a uma forma que neutraliza suas possibilidades expressivas. A linha pode ser uniforme, precisa e instrumentalizada, mas também pode ser ágil, densa, trépida, redonda, firme, reta, espessa, fina, permitindo infindáveis possibilidades expressivas. A linha revela a nossa percepção gráfica. Quanto maior for nosso campo perceptivo, mais revelação gráfica irá obter. A agilidade e a transitoriedade natural do desenho acompanham a flexibilidade e a rapidez mental, numa integração entre os sentidos, a percepção e o pensamento . Ela nos leva a perceber o espaço a configurá-lo. Assim forma-se o desenho, através da linha que vai de um ponto ao outro.

Processo Híbrido do desenho com outros suportes

Dentro da contemporaneidade as formas de expressões passam por um processo de hibridação onde o riscar, marcar, mesclam com o furar, tecer numa conjunção de linguagens marcadas pela manipulação de matérias diretamente relacionados com o universo da manualidade. O desenho contemporâneo se manifesta de várias maneiras, o ponto já não forma mais a linha e sim a linhas vai formando o ponto onde o lápis passa a ser substituído pela a agulha que, no vai e vem, forma o objeto marcado, entre outras coisas, por uma sensibilidade feminina que se estende tanto na temática quanto na escolha de matérias diretamente relacionadas ao universo de atividades manuais doméstica, como tecidos, bordados, travesseiros, mantas, brocados, entre outros. Na temática, as novas obras podem assumir tons que remetem à intimidade de um diário, lança um olhar poético, inovador e até irônico aos ícones que definem esse universo doméstico, marcado por copos, xícaras, batons, anéis, lingeries, cadeiras, panelas, destacando-se dentro do conceito da Dimensões íntimas do feminimo segundo Kátia Canton.
Esta sensibilidade se manifesta pelo próprio desejo de se mostrar presente, desnudando-se através de cada obra, num movimento de ruptura de padrões e regras diante da arte e da própria vida, fazendo-se presente através da utilização de objetos ou fatos do cotidiano que estão situados no mundo imaginário e colocados à vista. A obra deixa de ser contemplativa, passando a ser provocativa, reflexiva e reveladora.
Percebe-se cada vez mais que atividades artesanais de ocupação feminina passam a mesclar com as artes visuais no processo híbrido de construção de diversas linguagens visuais, como o bordado, a costura, o tricô, etc., incorporando-se do conceitual ao matérico, dentro dos sistemas das artes, considerando que essa mistura de técnicas situa suas experiências nos limites ou ‘fora do’ gêneros artísticos tradicionais. As fronteiras das técnicas são abolidas e transgridem sua própria natureza conduzindo-se a um terreno pleno de mutações, constituindo-se um sistema de migrações que produz fenômenos dificilmente classificados, e cujas características são a heterogeneidade, multiplicidade e intertextualidade. Esses processos híbridos de técnicas e linguagens se relacionam uma com as outras. Para Frederico Morais, pesquisador e crítico de arte, “o desenho está deixando de ser uma atividade-meio e está entre a performace e a instalação.”
Nos anos 1980, muitas investigações foram realizadas por artistas que viram o desenho como um campo de possibilidades infindáveis. Variando de suportes, do papel propriamente dito em formatos não tradicionais às instalações, utilizaram-se de materiais, como fios naturais e sintéticos, o desenho tridimensional, néons, entre outros, onde o espaço físico dialoga com o espaço matérico, convidando o expectador a fazer parte da obra, pois criar uma instalação artística é investigar o novo campo perceptivo, transformando imagens bidimensionais, gerando a tridimensionalidade em trilhos a serem percorridos, numa quarta dimensão: o tempo. A obra criada será naturalmente vivenciada através dos cincos sentidos, provocando ao espectador distintas sensações.
Selecionar materiais e transportá-los à sala de exposição, transformando o ambiente convidativo à participação do público pode ser uma maneira simplificada de descrever uma instalação, termo que teve suas primeiras idéias em direção as obras hoje denominadas instalações, começando-se por Marcel Duchamp com o seu O GRANDE VIDRO ou la Marieé Mise à Nu par ses Celibataires, Même (1912-23). Esta obra foi considerada como o momento no qual a arte se manifesta à frente do espectador, saindo da parede, levantando-se e interagindo no espaço, exatamente por sua transparência, a qual permite a indução (em sua leitura) do espaço circundante.
Antes do uso geral do termo instalação, que se popularizou nos anos 1970, a década de 50, do século XX, abriu espaço o espectador participar da obra como possibilidade criadora, os Happennings, as ações do Grupo Fluxus, os bichos de Lígia Clark, os parangolés de Hélio Oiticica, as Assemblagens e os Enviroments (obras que chegavam a ocupar todo o espaço de uma galeria), como na arte de Alan Kaprow. Os artistas interessados nessas linguagens utilizaram-se da linguagem ambiental para enfatizar a inserção da obra de arte no cotidiano como algo comercial e descartável. Os materiais oriundos do cotidiano ampliaram-se sua presença na arte desse período, constituindo, assim, um diálogo entre arte e vida.
Embora várias dessas linguagens visuais permitam novos caminhos, fuga e/ou a recriação de uma situação, um fato, um momento, o mais importante é que cada artista crie sua própria linguagem para transmite seu conteúdo, sua mensagem, pois acredita-se que a experiência sensorial ganha seu significado maior no foro interno da reflexão de cada um. O artista é um investigador de novas possibilidades técnicas e, acima de tudo, um intérprete de sua época, de seus momentos.
por:Bia Santos

3 comentários:

Talita disse...

Olá,meu nome é Talita e adorei o blog do grupo.Gostaria se possível da ajuda de vocês,estudo no curso de Artes plásticas do CEFET-CE e meu TCC é sobre Desenho com materiais como:esponja de banho,espomja de aço,rolo de pintura para parede e outros.Preciso de referências para o meu relatório,vocês poderiam me indicar alguém,ou alguma obra?

Thiago disse...

Boa noite! A postagem é bem antiga mas muito bem escrita e elaborada! Comecei a acompanhar o blog por causa dela. Muito interessante. No entanto, mais interessante ainda seria colocar bibliografia nos posts! Por exemplo, da onde foi retirada a frase do Frederico Morais que consta no texto =) Agradeceria muito se me dissesse o nome do livro ;)
Obrigado

Thiago disse...

Boa noite! A postagem é bem antiga mas muito bem escrita e elaborada! Comecei a acompanhar o blog por causa dela. Muito interessante. No entanto, mais interessante ainda seria colocar bibliografia nos posts! Por exemplo, da onde foi retirada a frase do Frederico Morais que consta no texto =) Agradeceria muito se me dissesse o nome do livro ;)
Obrigado